sábado, 22 de março de 2014

ILITERACIA É UM CASO SÉRIO

A capacidade de intervirmos no mundo e colocarmos em prática o senso crítico que nos é inerente é correlacional à capacidade de o interpretarmos e entendermos.

Ora se com o avolumar de informação que nos chega diariamente não conseguimos arrumar em prateleiras aquele que já é ou deveria ser o nosso conhecimento adquirido estamos perante um caso sério: um caso sério de dificuldade em exercer a nossa cidadania e participação democrática conduzindo à inércia e passividade social.

Os jornalistas desempenham um papel fundamental a "arrumar" a informação e torná-la mais acessível mas cabe sobretudo a cada um de nós a responsabilidade de estarmos informados e questionarmos sem medo quando não percebemos determinado assunto.

A educação nas escolas tem feito muito pouco, no meu entender, para incentivar os jovens a serem mais curiosos na aprendizagem do que há para além do que vem nos livros. É evidente que não estou a descurar o papel das escolas nem daquilo que ensinam, mas a realidade mostra que não é suficiente.

Repito: o combate à iliteracia é "tpc" de cada um, mas como mostram estudos e nos apercebemos no dia-a-dia algo está a correr muito mal e a culpa, se faz sentido apontar culpados, não é só do ignorante do nosso vizinho. Para mim indica que é preciso fazer mais para "descodificar" a informação que nos chega como conseguem, com memorável eficácia, alguns "profissionais do humor".

Encontrar outras formas de construirmos uma sociedade civil com mais conhecimento, com mais facilidade para entendê-lo e assim desenvolver um senso crítico com propriedade é uma tarefa para a qual todos podemos e devemos contribuir para o incremento da democracia numa base mais sólida.



quarta-feira, 5 de março de 2014

Pensar em crioulo, falar em português?

                        Temos de falar a língua do pensamento



Não sou especialista de nenhuma espécie, de linguística ou afins, apenas uma curiosa e constante questionadora.

Pensar em crioulo e falar em português: é o que acontece em Cabo Verde e pergunto-me se faz algum sentido aqui ou em qualquer outra parte do mundo onde o mesmo acontece. Parece-me lógico, no entanto, que devemos falar a língua do pensamento, logo o crioulo-cabo-verdiano.

A discussão de tornar o crioulo língua oficial de Cabo Verde ou vivermos num sistema bilingue não é nova. Na multiplicidade das suas expressões, tantas como as suas ilhas habitáveis, é preciso encontrar um padrão sem perder a riqueza que lhe está associada.

Para não perder a riqueza das suas “variantes”, o crioulo de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Sal, Boa Vista, Maio, Santiago, Fogo e Brava, porque não criar uma espécie de nova língua de fácil aprendizagem e entendida por todos? Uma espécie de Esperanto aplicado somente ao arquipélago?

Evitar-se-ia ferir susceptibilidades dos falantes de cada uma das variantes, assim como entrar em rivalidades desnecessárias sobretudo entre badiu x sampadjudo.

Um “Kabuverdianu” como língua oficial de Cabo Verde, ao lado do português.

A necessidade de se criar um sistema bilingue é assim justificada mais do que pelo reforço de uma identidade própria, passa por uma descolonização que ainda falta completar.

O ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa, defendeu precisamente que a descolonização ainda só foi feita pela metade, referindo-se ao facto dos "colonizados" ainda serem olhados como inferiores. Nesse ponto de vista, não é que com uma língua própria isso mude, mas não depende de nós mudarmos o modo com os outros nos olham, mas sim o modo como olhamos para nós próprios.

E esse olhar, com uma língua própria, revê-se na auto-estima de um povo e eu pergunto-me se isso tem preço. Sim, porque criar uma própria língua tem custos, burocracias, leva tempo “etc malagueta”, mas acredito que vale a pena. Mais que uma prerrogativa é um direito falarmos como pensamos.