segunda-feira, 9 de junho de 2014

Não mudes

Esqueci-me da alegria, da descontração, como quem deixa parte do seu cérebro adormecer, parte do seu coração partir. Esqueci-me...talvez não seja a melhor palavra. Deixei morrer aquela pessoa que agradecia por tudo, pelo sol, pelo tecto, pela água potável, pela comida na mesa, pelas pessoas também. Atropelei-me. Achei que salvava alguém, mas não. Caí e tudo continuou na mesma. Temos de nos ter para nós próprios. Segui atropelando o meu corpo, os gestos, as palavras e a alegria tornou-se uma miragem cada vez mais distante. A vida segue e não recuperamos o que foi. Podemos tentar plagiar o que fomos, mas as nossas tonalidades agora são outras. Como trazer de novo a alegria ao dia-a-dia então?
Começando, talvez, por não repetir o que a roubou. Se for para cair, para tropeçar, que seja por nós próprios. Mais facilmente existe fuga que gratidão. Mais facilmente existe interrogação do que afirmação. Mais facilmente existe desconfiança do que aceitação de uma entrega plena e desinteressada. Então foge, interroga, desconfia. Mas não queres mudar porque não te queres corromper com valores que nunca te guiaram. Aceito. Aceito porque sem falar em nomes há referências. Não fujas, não interrogues, nem desconfies demasiado. Muda em outras coisas, mas não no essencial. O belíssimo ser humano que és, não se copia, é irrepetível, único. E o essencial em ti é que carregas o peso do mundo nos teus ombros e não te encurvas; o essencial em ti é que carregas um amor pelo próximo que poucos alimentam - deixa estar, isso é para os fortes; o essencial em ti é que nunca vais verdadeiramente mudar e o mundo só tem a ganhar com isso. 

domingo, 13 de abril de 2014

A morada do medo

Sei a morada do medo: vem de tudo o que não podemos controlar. Não será propriamente uma novidade mas tendo-o escrito ajuda-me a percebe-lo melhor.

E o que é que não controlamos? Em primeiro lugar a reacção dos outros e é aí que vou procurar centrar-me.

Chamo timidez à forma mais "leve" de temer a reacção dos outros. Ansiedade social como uma forma mais pesada.

Devido essencialmente ao desenvolvimento tecnológico actualmente a interacção social está fragilizada, perdida e é alvo de muitas interrogações.

Ao comunicarmos mais com prejuízo do convívio, a fronteira entre o que somos e o que parecemos torna-se mais visível e ao mesmo tempo mais obscura; na realidade não temos grande controlo sobre isso. Não será primordial que queiramos primeiro que tudo controlar quem somos? Sem controlarmos quem somos e muito menos os outros (leia-se: sem sabermos quem somos e muito menos quem são os outros) deixamos-nos paralisar pelo medo. 

Constato assim que estamos mais medrosos e inseguros nas nossas interacções com os outros. Apenas sei que o medo, como tudo, quando ultrapassa o limite da razoabilidade é perigoso. Começa por ser paralisante até tornar as pessoas inactivas.

O meu lema é: é preferível morrer a viver com medo. Quero com isto dizer que temos de enfrentar todos os nossos medos porque não fazê-lo é uma morte lenta e eu não quero morrer cedo. 


sexta-feira, 4 de abril de 2014

O amor


O melhor desarme é o amor. Embora seja um ensinamento milenar acredito que poucos somos aqueles que o colocamos em prática.

Responde com amor, sobretudo quando não esperam que o faças. Não porque é “correcto”, não porque és fiel a determinada religião, mas porque só pode ser esse o caminho.

Esse amor tem de vir do mais profundo de ti e, se realmente vier, é o teu melhor amigo e companheiro. Aí vais tornar-te uma pessoa cada vez melhor.

Todos nós “gritamos” aos quatro ventos que queremos ser melhores pessoas, mas quantos de nós fazemos algo nesse sentido?

Sim este não é um texto lamechas sobre o amor e eu que adoro textos lamechas! É para pensarmos, porque nunca é demais, no amor que damos ao próximo, aos nossos irmãos que nos acompanham nesta jornada diária e no amor que dispensamos a nós mesmos.

Quantas vezes te “atacaram” e respondeste com amor? Quantas vezes “atacaste” alguém e essa pessoa respondeu-te com amor e compreensão?

“Nada do que é humano me é estranho” (Terêncio) porque afinal “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos” (William Shakespeare).

É com essa premissa presente nas nossas vidas, com essa noção de irmandade que devemos procurar compreender o outro, aceitá-lo como parte de nós mesmos, amá-lo, amarmo-nos.

Talvez escreva como vivo, no mundo da lua, mas ainda quero acreditar nos meus sonhos de criança, que este mundo pode ser realmente melhor se assim o quisermos, que tu podes realmente melhorar se o desejares e que, juntos, podemos preservamos o melhor que este planeta tem…o amor.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Vida dji novela


Hoje em dia as pessoas desenham a sua vida já com olhos postos na sua biografia. Imaginam os seus passos pessoais e profissionais descritos na sua novela bem sucedida.

 A verdade é que não posso afirmar que “isso é de hoje” mas com as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) deixamos, pelo menos, mais “documentos” que marcam a nossa passagem. E nessas marcas biográficas queremos as paisagens mais maravilhosas, de preferência rodeados de amigos a beber uma qualquer bebida alcoólica a simbolizar a nossa (aparente) felicidade: o cenário novelesco perfeito, portanto.

Mas esse cenário não é completo sem os maus momentos. Se por um lado não queremos “manchar” a nossa biografia, por outro lado são esses “baixos” que nos tornam humanos. Querendo nós ser bem-sucedidos dentro e fora das redes sociais não admira ver traços mais tristes da nossa personalidade escarrapachados nos meios digitais (aliás não deixa de admirar mas isso já é outra história).

Mas como se escreve a nossa biografia? É certo que deixamos um rasto de nós nas redes sociais mas aceitamos com tranquilidade que isso nos defina? Creio que a resposta é não. Embora não saiba como escrever uma biografia actualmente que não descure “estes mundos” em que vivemos, acredito que todos nós temos uma ideia de como queríamos que nos retractassem, como está supracitado.

Sendo certo que “o que somos de verdade e o que queremos só nós sabemos” (Martha Medeiros) a maneira como nos expomos cada vez mais em todo o lado faz-me desconfiar desta máxima (será que essa exposição nas redes sociais não nos faz expor mais no dia-a-dia quando falamos com aqueles que nos são próximos pelo facto de à partida saberem mais sobre a nossa rotina, etc.?).

Termino com a preocupação de como o mundo virtual está a sugar as nossas vidas (o que acho perigoso) e com o apelo de que a nossa vida seja mais vivida, com menos photoshop e menos “cenas dji novela”.

sábado, 22 de março de 2014

ILITERACIA É UM CASO SÉRIO

A capacidade de intervirmos no mundo e colocarmos em prática o senso crítico que nos é inerente é correlacional à capacidade de o interpretarmos e entendermos.

Ora se com o avolumar de informação que nos chega diariamente não conseguimos arrumar em prateleiras aquele que já é ou deveria ser o nosso conhecimento adquirido estamos perante um caso sério: um caso sério de dificuldade em exercer a nossa cidadania e participação democrática conduzindo à inércia e passividade social.

Os jornalistas desempenham um papel fundamental a "arrumar" a informação e torná-la mais acessível mas cabe sobretudo a cada um de nós a responsabilidade de estarmos informados e questionarmos sem medo quando não percebemos determinado assunto.

A educação nas escolas tem feito muito pouco, no meu entender, para incentivar os jovens a serem mais curiosos na aprendizagem do que há para além do que vem nos livros. É evidente que não estou a descurar o papel das escolas nem daquilo que ensinam, mas a realidade mostra que não é suficiente.

Repito: o combate à iliteracia é "tpc" de cada um, mas como mostram estudos e nos apercebemos no dia-a-dia algo está a correr muito mal e a culpa, se faz sentido apontar culpados, não é só do ignorante do nosso vizinho. Para mim indica que é preciso fazer mais para "descodificar" a informação que nos chega como conseguem, com memorável eficácia, alguns "profissionais do humor".

Encontrar outras formas de construirmos uma sociedade civil com mais conhecimento, com mais facilidade para entendê-lo e assim desenvolver um senso crítico com propriedade é uma tarefa para a qual todos podemos e devemos contribuir para o incremento da democracia numa base mais sólida.



quarta-feira, 5 de março de 2014

Pensar em crioulo, falar em português?

                        Temos de falar a língua do pensamento



Não sou especialista de nenhuma espécie, de linguística ou afins, apenas uma curiosa e constante questionadora.

Pensar em crioulo e falar em português: é o que acontece em Cabo Verde e pergunto-me se faz algum sentido aqui ou em qualquer outra parte do mundo onde o mesmo acontece. Parece-me lógico, no entanto, que devemos falar a língua do pensamento, logo o crioulo-cabo-verdiano.

A discussão de tornar o crioulo língua oficial de Cabo Verde ou vivermos num sistema bilingue não é nova. Na multiplicidade das suas expressões, tantas como as suas ilhas habitáveis, é preciso encontrar um padrão sem perder a riqueza que lhe está associada.

Para não perder a riqueza das suas “variantes”, o crioulo de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Sal, Boa Vista, Maio, Santiago, Fogo e Brava, porque não criar uma espécie de nova língua de fácil aprendizagem e entendida por todos? Uma espécie de Esperanto aplicado somente ao arquipélago?

Evitar-se-ia ferir susceptibilidades dos falantes de cada uma das variantes, assim como entrar em rivalidades desnecessárias sobretudo entre badiu x sampadjudo.

Um “Kabuverdianu” como língua oficial de Cabo Verde, ao lado do português.

A necessidade de se criar um sistema bilingue é assim justificada mais do que pelo reforço de uma identidade própria, passa por uma descolonização que ainda falta completar.

O ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa, defendeu precisamente que a descolonização ainda só foi feita pela metade, referindo-se ao facto dos "colonizados" ainda serem olhados como inferiores. Nesse ponto de vista, não é que com uma língua própria isso mude, mas não depende de nós mudarmos o modo com os outros nos olham, mas sim o modo como olhamos para nós próprios.

E esse olhar, com uma língua própria, revê-se na auto-estima de um povo e eu pergunto-me se isso tem preço. Sim, porque criar uma própria língua tem custos, burocracias, leva tempo “etc malagueta”, mas acredito que vale a pena. Mais que uma prerrogativa é um direito falarmos como pensamos.